Sacudir o pó


Conforme consta do Evangelho segundo Lucas, em dado momento Jesus enviou Seus discípulos para pregar e curar.

Dentre as exortações, orientou como deveriam se comportar, caso eles e suas ideias não fossem acolhidos em algum lugar.

Nessa hipótese, os discípulos deveriam se retirar e sacudir o pó de seus pés.

Há quem veja nessa forte expressão um anátema lançado contra os descrentes.

Contudo, isso destoa do conjunto da mensagem do Cristo.

Jesus ensinou e exemplificou a compaixão e não fugiu do contato com os equivocados do mundo.

Afirmou mesmo que os sãos não necessitam de remédio.

Uma coerente interpretação da exortação é no sentido de que os discípulos não deveriam conservar qualquer rancor.

Ao se despedir de quem não os havia aceitado e compreendido, deveriam seguir de alma leve.

Bater o pó dos pés equivaleria a se livrar de todo traço de impureza, no sentir e no pensar.

Trata-se de uma lição preciosa, cuja aplicação permite permanecer em paz em face da incompreensão.

É comum a criatura idealista desejar partilhar seus sonhos e projetos de um mundo melhor.

Ela se toma de natural tristeza quando não é compreendida.

Esse sentimento é ainda mais forte quando são seus amores que não a entendem.

Por exemplo, um pai rigorosamente honesto que não consegue convencer os próprios filhos a lhe seguirem os exemplos.

Uma esposa tomada do ideal da caridade que encontra resistência no próprio esposo, quanto a seus atos generosos.

Um professor apaixonado pelo saber que depara com alunos preguiçosos.

Nessas experiências decepcionantes, é preciso sacudir o pó dos pés.

Compreender que a liberdade é uma lei da vida e não esperar dos outros o que ainda não podem ou não querem dar.

A construção de um mundo melhor não se faz sem sacrifícios. Quem esposa o ideal de um padrão ético superior é um homem do amanhã.

Ele vive hoje o que a maioria viverá mais tarde.

Sua função é a de um semeador do bem.

Com seu exemplo, demonstra a possibilidade de ser honrado e generoso.

Com suas palavras, exorta os que o rodeiam a imitá-lo.

Mas não pode impor suas ideias.

Cada alma amadurece a seu tempo para as grandes verdades da vida.

Perante incompreensões, resta a tranquilidade da consciência pelo dever bem cumprido.

E também a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, as sementes do bem produzirão saborosos frutos.

Compete a cada homem colaborar para que o mundo se aprimore e os costumes se purifiquem.

Entretanto, o resultado de seus esforços repousa nas mãos de Deus.

Com o inesgotável recurso do tempo, Ele assegura que, no momento adequado, o bem se torne pujante, no íntimo de cada ser.

Autoria: 
Redação do Momento Espírita. Colaboração Marcia Farbelow