Uma real história de Natal em nossas ruas


Era 25 de dezembro de 1987, por volta das 12 horas. Eu dirigia meu velho Passat, junto de meu pai e uma tia, rumo ao "Gato que Ri", restaurante famoso nas imediações da República, para comprar massa fresca e fazer o almoço de Natal. Mal poderia saber que aquele seria o último Natal que passaria com minha família, embora estando todos com saúde e bem.

Estava bastante feliz, porque Natal para mim é uma data muito significativa que nos aproxima dos amigos e familiares que não vimos durante todo o ano, através de cartões ou telefonemas, com a promessa de que o próximo ano será diferente, e que conseguiremos nos reunir.

Também gosto muito do Natal, porque sempre há belas mensagens que nos remetem a pensar no meigo mestre Jesus, no seu exemplo de vida e no caminho que Ele nos convida a trilhar. Sempre faço profundas reflexões na esperança de me aperfeiçoar e me tornar um ser melhor, seguindo a proposta espírita da reforma íntima.

E assim seguia o meu caminho, rumo às massas, quando o farol fechou. Estava na Rua Amaral Gurgel, que fica sob o famoso viaduto Costa e Silva. Por causa da proteção às intempéries que presta, abandonados de toda a sorte desfrutam desta rua como se ali estivessem seus lares. É comum ver sofás, poltronas, cadeiras, mesas instalados nesta rua. Ali vivem famílias que foram despejadas e que não tiveram local para ir. Contudo, nem todos têm a "sorte" de ter todas estas comodidades. Há aqueles que, descalços, com um cobertor nas costas, chamando-se de "Batman", heróis no infortúnio, sobreviventes de uma vida de desilusão e desprezo, seguem de cabeça erguida, olhando para o infinito à espera de misericórdia e pão. Estes não têm locais fixos, cada dia estão num lugar. E é sobre um destes que a minha história se desenrola.

Farol fechado. Olho para a esquerda e vejo um mendigo, cabelos compridos e eriçados pela sujeira, com uma lata de 20 litros fazendo fogo e aquecendo seu único pão. Pensei como deve ser difícil ter apenas um único pão para passar o dia de Natal quando todos, ou a maioria, se fartam de tanto comer. Enquanto divagava neste sentido, outro mendigo se aproxima lentamente, olha tímido para aquele pão que está sendo aquecido. Ele não tem nada, nem um cobertor para se fingir de "Batman", pés descalços e olhar triste. Olha para o pão, e volta a olhar para a frente. O pão não é seu. Porém talvez a fome não permitiu que seus olhos seguissem adiante, desprezando-o. Olhou mais uma vez para o pão, quando numa atitude de total desprendimento o primeiro mendigo se aproxima do fogareiro, pega o seu pão e o reparte ao meio, para dividí-lo com seu desconhecido colega de infortúnio. Não há palavras, só gestos. Aquele que recebeu o pão agradece com um pequeno e breve sinal de cabeça seguindo seu rumo. O dono do pão vai até a beira da calçada e começa a vociferar ininteligivelmente. Sons estridentes e desconexos saem de seu peito e cantam a sua voz. Talvez fosse a voz dos anjos que desceram sobre a Terra e que nos espreitam e esperam a cada dia.

Para mim o tempo parou naquele instante. Pode ter acontecido uma infinidade de coisas magníficas na fração de tempo que o farol permaneceu fechado. É possível que enquanto o farol fechou, outras portas se abriram para que pudesse ver a magia daquele dia de Natal.

Ali estava alguém que, sem dizer nada, resumiu tudo e com os sons desconexos que vociferava, provavelmente falava com Deus numa linguagem que poucos poderiam entender. Só os que são verdadeiramente puros de coração poderiam entender suas palavras.

Neste instante, meu pai que nada havia presenciado da cena, ao escutar aqueles gritos falou: Olhem! Aquele homem está louco!!!

Realmente, só os "loucos" que vivenciam o Evangelho podem estar perto de Deus.

O farol abriu, o carro seguiu, mas eu fiquei lá, até hoje estou lá, sempre procurando por aquele louco ou anjo que resumiu toda a mensagem de Cristo no tempo de um único farol fechado.

Autoria: 
Diana O. Romanini