Nascemos em um mundo material. Como seres encarnados, dependemos dos bens materiais para sobreviver. Na maioria das vezes, porém, não conseguimos descobrir o limite entre o necessário e o supérfluo. A cada dia que passa temos novas necessidades. Mas nunca achamos que temos o suficiente ou que temos demais. Mas qual nossa real necessidade? Como avaliarmos nossas riquezas materiais? Como sabermos se o que possuímos e o que queremos é realmente necessário?
A princípio, poucas coisas nos bastam: uma alimentação sadia, vestimentas limpas e um teto para nos abrigar. Precisamos, também, de momentos de lazer e, para isto, necessitamos de uma televisão e um aparelho de som. Para facilitar nosso transporte diário, faz-se necessário um automóvel particular. Em casa, visando poupar tempo e energia, podemos nos utilizar de vários equipamentos domésticos. Para acompanhar o progresso, torna-se útil a aquisição de um computador. Uma escola particular e um plano de saúde também são importantes num país como o nosso.
Será que já temos o bastante? Não, ainda não. Nosso carrinho já está muito velho; precisamos de um melhor. Deixemos o antigo com nossos filhos.
E o futuro? Já pensamos nele? Não seria melhor aproveitar o dinheiro que nos sobra e aplicarmos em algum Banco? Nossas roupas já saíram de moda; a sociedade nos cobra demais. Precisamos de várias roupas para situações diferentes. Nossos filhos andam brigando por causa do carro. É melhor que cada um tenha o seu.
Celular, MP3... precisamos nos manter atualizados, os equipamentos evoluem muito rápido. Televisão? A programação anda péssima. Precisamos urgente de uma TV a cabo.
Finalmente temos tudo o que precisamos. Mas... um momento. A garagem anda pequena para tantos carros. Precisamos reformá-la. Talvez devêssemos nos mudar para um conjunto residencial, onde há maior segurança. E não seria melhor mudarmos para aquele plano de saúde que oferece um helicóptero nas emergências? As roupas; sempre dando problemas. Será que ainda não percebemos que o guarda-roupa está pequeno? Maldito progresso! Esse computador já não resolve meus problemas.
Bom, trabalhamos muito para conseguir todas essas coisas. É hora de descansar. Merecemos fazer uma viagem para os Estados Unidos. Um belo país. Primeiro mundo. Os equipamentos que trouxemos de lá são fantásticos!! Para onde iremos nas próximas férias?
Estamos, agora, voltando para casa. Talvez passemos pelo clube para relaxarmos um pouco. Depois podemos ir jantar em algum restaurante e assistir a uma boa peça de teatro. Mas nosso carro, que trocamos no início do ano, quebrou no meio do caminho. E o que é pior: quebrou em frente a uma favela. Um menino vem a nosso encontro. É o mesmo que nos pede dinheiro todos os dias naquele farol. Diz que em sua casa tem alguém que pode nos auxiliar. Procuramos uma casa mas só encontramos um monte de madeira empilhada. No interior notamos que em um quarto dormem sete pessoas e que, mesmo com todo o frio daquela noite, encontram-se todos apenas com uma blusa finíssima. Chegamos numa má hora. Hora da janta. Somos convidados a lhes acompanhar no banquete: arroz, feijão e farinha.
Nosso carro já voltou a funcionar. Voltamos para casa pensativos... Mas agora não nos indagamos mais se temos tudo o que precisamos. Deus havia nos deixado uma grande lição. Chegamos em casa, olhamos tudo ao redor e nos perguntamos: " Será que precisamos de tudo o que temos?"