Doação de órgãos e as sensações do espírito


Pergunta de Angela Aparecida Esteves Solano: No caso de uma pessoa jovem, atleta, saudável, desencarnar por morte cerebral, e a decisão de doar os seus órgãos for de sua família, e não dela, pergunto: ela será mutilada viva? Em que momento ocorrerá a desencarnação? Há o desligamento espiritual no momento da morte cerebral?

O Espiritismo é o traço de união entre a vida espiritual e a vida material, e só ele pode nos dizer como se opera a transição, quer pelas noções mais positivas na natureza da alma, quer pela descrição dos que deixaram este mundo. O conhecimento do laço fluídico que une a alma ao corpo é a chave desse e de muitos outros fenômenos.

A morte física se dá com a morte cerebral, pois a partir daí, o espírito não pode mais retornar ao corpo físico. Apenas este último continuaria "vivo", uma vez que é mantido por aparelhos. Logo após a morte cerebral, o que sobra é a vida vegetativa das nossas células, que só pode ser mantida por aparelhos, já que o seu dirigente, o espírito, não mais está presente ou apto a dirigir seu funcionamento. O papel do Espírito é de organizar todo o sistema. Assim, na sua ausência, as células, sem controle, passam a morrer. Isso pode ser comprovado pelo simples fato de ser possível manter células vivas em cultura. Portanto, é a alma, e não o corpo, quem sofre, pois este não é mais um instrumento de dor.

No caso da pergunta, a vida orgânica em plena exuberância de força, é subitamente aniquilada. Nestas condições, o despreendimento só começa depois da morte e não pode completar-se rapidamente. O espírito, colhido de improviso, fica como que aturdido e sente, e pensa, e acredita-se vivo, prolongando esta ilusão até que compreenda seu estado.

Este estado intermediário entre a vida corporal e a espiritual, é um dos mais interessantes para ser estudado porque apresenta o espetáculo singular de um espírito que julga material seu corpo fluídico, experimentando, ao mesmo tempo, todas as sensações da vida orgânica.

Há, além disso, dentro desse caso, uma série infinita de modalidades que variam segundo os conhecimentos e progressos morais do espírito.

Para aqueles cuja alma está purificada, a situação pouco dura, porque já possuem em si como que um desprendimento antecipado, cujo termo, a morte mais súbita não faz senão apressar.

Outros há, para os quais a situação se prolonga por anos inteiros. É essa uma situação muito frequente até nos casos de morte comum, que nada tendo de penosa para espíritos adiantados, se torna horrível para os atrasados. O suicida, principalmente, excede a toda expectativa. Preso ao corpo por todas as suas fibras, o perispírito faz repercutir na alma todas as sensações daquele, com sofrimentos cruciantes

Após a morte, separada a alma, o corpo pode ser impunemente mutilado que nada sentirá; aquela, uma vez isolada, nada experimenta da destruição orgânica. A alma tem sensações próprias cuja fonte não reside na matéria tangível. A insensibilidade da matéria inerte é um fato.

Tanto maior é o sofrimento quanto mais lento for o desprendimento do perispírito. A presteza desse desprendimento está na razão direta do adiantamento moral do espírito.

Somente nós, com o nosso modo de vida desregrado e através de nossos maus pensamentos, é que danificamos o nosso perispírito, e as sensações pelas quais passamos no mundo espiritual, apesar de poderem ser desagradáveis, como dor ou fome, são apenas produtos do nosso psiquismo, já que o espírito não tem necessidade de comer e nem sente dor. Uma vez que nos ajustemos, tais sensações desaparecem e passamos a nos integrar melhor na nossa nova situação.

O tempo, maior ou menor, de que necessitaremos para essa nossa adaptação dependerá do nosso grau evolutivo.

Independente do tipo de morte e do que vier a acontecer com o corpo físico, o que vai fazer a diferença para a nossa nova situação é o quanto tivermos evoluído e nos desapegado das coisas que ficaram para trás. A lentidão e a dificuldade do desprendimento estão na razão do grau de pureza e desmaterialização da alma. De nós somente depende tornar fácil ou penoso, agradável ou doloroso esse desprendimento.

Posto isto, quer como teoria quer como resultado de observações, resta-nos examinar a influência do gênero de morte sobre as sensações da alma nos últimos transes.

Vamos pois praticar a caridade e procurar aprender tudo o que pudermos, pois são esses os únicos valores que teremos à nossa disposição no mundo maior. Eles são de fato o tesouro que o ladrão não rouba e que a traça não rói.

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Autoria: 
Material de estudo: "O Céu e o Inferno" de Allan Kardec. Colaboração: Hugo Puertas de Araújo e Márcia R. Farbelow