Os livros da Bíblia e a nossa interpretação


PERGUNTA DE RAFAEL TADEU: Tenho um colega, que já foi espírita e hoje é Evangélico, que afirma ter evoluído ao abraçar a nova religião. Diz que as coisas que o Espiritismo trata não passam de alucinações e parceria com o diabo. Como argumentar sem ofender? Por que o número de Evangélicos aumenta a cada dia?

Argumentar, sem ofender, é uma situação muito subjetiva, pois ofender não depende só de quem diz, mas também da disposição de quem ouve, pois depende do interlocutor aceitar que possam existir outras verdades e que esta não é absoluta, que não se trata de um corolário matemático. De qualquer forma, desde que em bases fraternas, respeitando-se os semelhantes e sem pretensão de convencimento, a defesa da doutrina espírita, pode e deve ser exercida sempre que oportuno.

Os Evangélicos têm a bíblia como a coluna dorsal de sua religião, contudo, temos que considerar as inúmeras contradições que a bíblia apresenta, pois na época em que foi escrita, a Ciência era muito insípida, as sociedades eram muito diferentes das atuais e em consequência a visão dos homens era muito diferente. Aliás a bíblia, as palavras de Jesus, os livros do Velho Testamento, devem ser entendidas em espírito, evitando-se o sentido literal de muitas passagens com graves prejuízos interpretativos. O entendimento literal de tudo isso, inclusive das Cartas dos Apóstolos, acrescido dos dogmas criados pelos homens, transformaram a Doutrina do Cristo, baseada no Amor e na Solidariedade entre os homens, todos criaturas de Deus, em seitas exclusivistas, induzindo seus seguidores ao fanatismo, à discriminação, à condenação.

Lembramos que, especificamente quanto ao Antigo Testamento, citado pela maioria das religiões, quando combatem o Espiritismo, alguns conceitos foram revogados por Jesus, é só ler: Hebreus 7:18; 10:9; 8:2; Coríntios 3:14.

Ora, se a Bíblia é a verdade absoluta como ficam os que a aceitam desta forma e não cumprem o que dizem, essas passagens?

Sugerimos um estudo sobre a história do cristianismo, e dos concílios da igreja. Com este estudo, poderemos observar um aspecto interessante: muita coisa que hoje é tida como sagrada e imutável, já foi objeto de muita discussão e controvérsia e cujo resultado final acabou sendo decidido por imposição de algum poderoso. Com isso, alguém algum dia decidiu o que seria sagrado e a partir daí, ninguém mais discutiu por medo de perder a vida. Como algo assim pode ser realmente sagrado?

É por isso que o espiritismo não possui dogmas. Cada um é livre para estudar o que quiser, sem medo de estar ofendendo a Deus. E depois de estudado um assunto, podemos aceitá-lo ou não, dependendo justamente do que concluímos com o estudo, e não por medo de Deus ou de quaisquer outros dogmas criados pelos homens ou porque está escrito em algum livro sagrado.

Estudando a história poderemos também compreender o espírito humano, e entender porque as pessoas acreditam nisso ou naquilo. Talvez há de se compreender, ainda, como se formam os paradigmas e as crenças e então saberemos distinguir o que é real e o que não é.

Esse tipo de raciocínio não ocorre a nenhum dogmático pois ele não tem essa liberdade de pensamento.

O vertiginoso crescimento numérico dos evangélicos deve-se, em parte, à intensa propaganda que fazem de sua religião na mídia. O Marketing é tão forte que faz conduzir a chamada "religião de massas". A religião evangélica promete resultados rápidos para uma única existência na Terra. Para alcançar alguma graça o fiél só precisa ter uma fé forte. O estudo da bíblia é até incentivado pela preleção dos pastores da igreja, o que é aceito por todos sem contestação. É fácil, pois assim não há necessidade de um estudo mais aprofundado nem da bíblia nem de nada. É a aceitação generalizada das promessas da boa-fé.

Achamos que o processo de multidivisões do cristianismo traduz nosso processo de evolução - muitos caminhos serão criados, obedecendo ao momento existencial de cada um e todos nos levarão a Deus, como ensinou Jesus: "Nenhuma ovelha se perderá do meu rebanho".

A doutrina dos espíritos conclamando os espíritas ao "amai-vos e instruí-vos", repete, em outros tempos, os ensinamentos de Jesus "Amai-vos como eu vos amei" e "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". São sínteses que requerem desdobramentos infinitos, implicando esforço, trabalho, estudo, aperfeiçoamento de sentimentos, enfim, todo um processo educativo visando o crescimento e o progresso individual. A educação em seu sentido amplo opera-se tanto no campo do conhecimento (instrução), quanto no dos sentimentos (amor, caridade, justiça).

Ditosos serão os que houverem trabalhado na seara do Mestre Jesus, com desinteresse e sem outro móvel, senão a instrução e a prática da caridade!

Entende-se a forte ênfase dada pelos espíritas às diferenças humanas, pois, cedo ou tarde, todos, não necessariamente os espíritas em primeiro lugar, atingirão graus mais elevados de desenvolvimento intelectual e moral.

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Autoria: 
Márcia R. Farbelow e Hugo Puertas de Araújo