Saudade
Era uma dessas noites claras, belíssima, quando, no firmamento, as estrelas desfilavam, faiscantes, encantando os olhos de quem as observasse.
A lua, exuberante, enfeitava, ainda mais, aquela longínqua paisagem, acariciando a Terra com sua luz prateada, apaziguando os corações, convidando-os a viajar nas asas do tempo.
Pensativo, com os braços apoiados no peitoril do alpendre da minha luxuosa residência, percorrendo com o olhar as inumeráveis nuanças daquela cena celestial, abraçado, momentaneamente, por indefinível melancolia, senti-me levado a rememorar os tempos passados e a refletir sobre o meu hoje e o meu próximo amanhã.
Recordei-me, então, da minha saudosa infância, quando externava a pureza da minha alma, através da espontaneidade das minhas palavras e da piedade, incondicional, do meu coração.
Meus pais me cercavam de todo o carinho, conforto e atenções, adornando os meus dias com suas amoráveis presenças.
Todas as noites, ao deitar-me, minha adorável mãezinha, pacientemente, contava-me doces histórias sobre Jesus e, ao final delas, enaltecia os Seus ensinamentos e Sua incansável bondade, fazendo com que, aos poucos, do Cristo me enamorasse.
O tempo fora passando e, jovem ainda, enfrentei a maior das minhas dores, quando os meus pais, repentinamente, partiram para o além, fazendo-me sentir inapelavelmente só, distante daqueles corações que tanto amava.
Inconformado, acossado pela revolta, deixei-me conduzir pelas mãos do mundo e, inebriado pelas suas ilusórias cores e efêmeros perfumes, fascinei-me, esquecendo-me do Sublime Peregrino do Amor.
Agraciado pela fortuna, caminhando pelas estradas da vida, conheci incontáveis rincões e criaturas, desfrutei vitórias e amargurei derrotas, sorri e chorei...
Desiludido com a vida e com as pessoas, naquele momento de profunda meditação, encontrava-me, outra vez, só, órfão do amor.
Foi quando então, duas lágrimas, incontidas, deslizaram pelas minhas faces, expondo as dores íntimas que me visitavam o coração.
Naquele inesquecível instante, uma voz silenciosa, percebida, tão-só, pelos ouvidos da minh' alma carente, dissera-me, plena de ternura: "Siga-me, irmão querido, faça-me companhia pelas veredas perfumosas do amor, pois, acredite, ainda há tempo!"
A partir daquele momento, uma alegria e uma paz, indizíveis, apossaram-se de mim, envolvendo-me completamente, fazendo-me sentir impelido a seguir os rastros do Mártir da Cruz, espargindo o amor junto a todas as criaturas que, doravante, viessem a cruzar os meus caminhos, como Ele, incondicionalmente, assim o fizera.
Foi então que tive a certeza, de que aquela profunda e inesperada melancolia que, instantes atrás, me havia, ternamente, abraçado, era, tão-somente, "saudade de Jesus"!
Ave Cristo!














