Doce Perfume...


Era mais uma manhã, como outra qualquer, quando, apressado como sempre, dirigia-me ao encontro dos meus afazeres.

Absorto em meus íntimos pensamentos, percorria, célere, os metros da calçada por onde caminhava, sem deles me aperceber, tais as preocupações que me ocupavam a mente.

Meus olhos, distraídos quanto às cenas que se desenrolavam ao meu redor, nada percebiam, como se estivessem visualizando, tão-somente, os horizontes que eu pretendia alcançar.

Em dado momento, porém, uma voz lamuriosa, mais parecendo um sussurro, penetrara em meus ouvidos, arrebatando-me dos pensamentos que, até então, não me davam tréguas.

Tratava-se de um mendigo, coberto de andrajos que, suplicante, estendera-me as mãos, na esperança de receber a moeda que lhe amenizaria as agruras.

Naquele instante, inexplicavelmente, um inebriante perfume como que me envolvera, fazendo-me sentir impelido a atender aquela amargurada súplica. Porém, apressado, contrariando aquele inesperado e fraterno desejo, nada fizera, acelerando os passos rumo aos meus interesses, quando então, aquele doce perfume, que há pouco houvera desfrutado, se desvanecera.

Mais adiante, avistei um outro homem, quase desfalecido, estirado na calçada, cujo corpo desnutrido, faces pálidas e olhos tristes, sofridos, delatavam a miséria suprema que o abraçava, provocando compaixão a quem por ali transitava.

Naquele momento, a mesma suave e indefinível fragrância, outra vez, se fizera presente, fazendo-me sentir estimulado a tomar uma atitude, auxiliando aquele infeliz ser humano, aliviando-lhe a desventura.

Todavia, ainda apressado, uma vez mais, desvencilhei-me daquele nobre e caridoso desejo, instigando os passos em direção aos meus objetivos, quando então, aquele perfume envolvente e inesquecível, novamente se dissipara.

Quando já me encontrava bem próximo do meu destino, eis que uma criança, há poucos passos de mim, distraída e empolgada, pôs-se a atravessar a rua, atrás de uma bola, correndo iminente perigo, pois um veículo, em irresponsável velocidade, vinha em sua direção.

Instantaneamente, senti aquele mesmo perfume, desta feita avassalador, fazendo-me sentir impelido a interceder, sem demora, em favor daquela criaturinha.

Numa fração de segundo, movido por uma coragem e piedade, nunca dantes sentidas, corri em direção àquela criança, amparando-a em meus braços, salvando-lhe a vida.

De imediato, uma paz indizível apossara-se do meu ser, fazendo-me desfrutar momentos de inolvidável ventura.

Asserenado, tive então a certeza de que aquela suave fragrância, que instantes atrás me envolvera, nada mais era do que o perfume de Jesus assinalando Sua presença, bem junto de mim, estimulando-me a fazer pelos outros o que Ele faria, se estivesse em meu lugar.

A partir de então, assim passei a agir e aquele doce perfume nunca mais me abandonou, fazendo-se presente em todos os momentos importantes da minha vida, acompanhando-me os passos, pelo resto dos meus dias.

Ave Cristo!

Autoria: 
Marcial Ferreira Jardim