Uma história de muita resignação e humildade


É com grande alegria que apresentamos a todos vocês, uma entrevista que D. Julieta Lúcio Camargo, 75 anos, moradora de Pirapitingui, carinhosamente nos concedeu. Não temos certeza se Dona Julieta sabe disso, porém, com a história de sua vida, com a doença, com tantas perdas que ela nos relata, fomos percebendo que se tratava de uma alma generosa, sensível, resgatando seu passado e construindo um futuro de vitórias espirituais.

Estamos Aqui - Há quanto tempo a Sra. está internada nesta Colônia?
Há 60 anos.

EA - Qual foi seu sentimento, quando soube que era portadora da hanseníase?
Ah!... foi muito triste. Eu vou tentar contar: eu tinha 12 anos de idade e na época eu já trabalhava com máquina de fiação para ajudar meus pais. Então um dia machuquei minha perna esbarrando na máquina e não senti nada. Cheguei em casa e contei para minha mãe. Ela só me disse uma coisa: "Ih, filha! Você tá com a doença do teu pai!"

EA - A Sra. procurou um médico?
Que médico que nada filha! Eu casei com meu namorado isso sim! Eu era bonitona na época! E eu contei tudinho pra ele e ele casou comigo assim mesmo.

EA - Como era a época em que a Sra. se internou aqui? Poderia nos relatar detalhadamente?
Era muito triste. Minha família toda já estava internada aqui pois todos em minha casa tinham a doença. Quando cheguei por aqui havia um regime ditatorial. Era um lugar que a gente podia considerar como "fora do mundo". Só havia quatro casinhas montadas com tábuas e só podiamos conversar com os próprios doentes e nunca com os guardas, eles tinham medo da gente. Quando um doente tentava fugir era preso numa cadeia que aqui existia. Sales Gomes, que era chefe por aqui, muito ruim pra gente, dizia assim: "Prendam todos e joguem a chave da cadeia fora". Um dia teve um movimento aqui parecido com essas greves de São Paulo e D. Conceição, que era muito boa para nós, juntamente com alguns doentes, encabeçou o movimento contra os maus tratos, contra o preconceito e contra a ditadura. Então alguns doentes, líderes do movimento foram duramente perseguidos por guardas armados. Os guardas ameaçavam botar fogo em nossas casas e em nós; viviamos correndo deles, nos escondendo no meio do mato, embaixo das nossas camas. Naquela época nós, os doentes, éramos muito mais amigos uns dos outros, mais solidários; a gente sofria, mas parecia que isso nos unia. Nossa, como a gente sofria! E no fundo eram os guardas que tinham mais medo da gente do que a gente deles.

EA - A Sra. possui filhos? Eles a visitam?
Sim. Eu tive 8 filhos. Todos nasceram aqui na Colônia. Mas por causa da minha doença assim que eles nasciam eram tirados de mim, numa cestinha, para um orfanato em São Paulo. Eu não criei nenhum filho. Assim que nasceu o primeiro a lepra ficou mais séria em mim. Dos 8 filhos nenhum pegou a doença, graças a Deus; eles me visitam sim, a Rita, Sandra, Lauro, Wagner, Sônia, Raimundo e Cleide, são eles. Foram criados em orfanatos. Se tudo isso fosse hoje eu poderia tê-los criados aqui, pois hoje é permitido, mas naquela época nunca! Os filhos eram arrancados de suas mães assim que nasciam e assim fizeram comigo.

EA - A Sra. acha essa colonia um bom lugar para se viver? O que a Sra. realmente faz, durante o período em que não aparece nenhuma caravana por aqui?
Tudo é muito abandonado por aqui. As vezes agente precisa de algumas coisas e não há ninguém para nos ajudar. Faltam remédios pra gente e várias outras coisas. Cuido de minha casa, eu mesma cozinho minha comida, assisto televisão só de vez em quando. Vivo aqui dentro isolada, às cinco e meia já vou dormir; de vez em quando aparece a Irma, uma vizinha que pergunta se eu quero telefonar para algum filho meu, se tá na hora de marcar consulta com o médico. Eu não saio daqui para nada, tenho medo, aqui tá muito abandonado. Também tenho outra amiga a Vírginia, muito boazinha, que de vez em quando vem dormir comigo.

EA - Do que e de quem a Sra. sente saudades?
Bom, meu marido, minha mãe e todo mundo morreu aqui. Mas aqui também me casei com meu segundo marido, e vivemos muito felizes. Cuidei muito dele. Ele morreu também, e é dele que sinto mais saudades.

EA - O que a Sra. pensa dessas caravanas espíritas que aqui comparecem aos domingos?
Elas merecem o maior amor do mundo, eu falo por mim e por mais ninguém. Os caravaneiros são meus amigos, meus filhos, minha família, eu os amo demais. Esta caravana de vocês é a coisa mais linda do mundo. Não sei o que seria da gente se vocês não existissem!

EA - D. Julieta, qual o conselho que a Sra. daria a nós, espíritas e leitores deste informativo?
Que vocês continuem sendo assim como são e fazendo aquilo que até agora fizeram com muito amor, que vocês nunca nos abandonem e o conselho que dou a todos do fundo do meu coração: que tudo que vocês começarem de bom na vida não parem, e continuem nos caminhos de Jesus.

Autoria: 
Márcia Regina Farbellow e Pedro O. F. de Oliveira