A verdadeira Caridade


Ele quase não viu a senhora com o carro parado no acostamento, mas percebeu que ela precisava de ajuda. Parou seu carro e se aproximou.

O carro dela cheirava a tinta, de tão novinho. Apesar do sorriso que ele estampava na face, ela ficou preocupada. Ninguém havia parado para ajudar durante a última hora. Iria ele aprontar alguma?

Ele não parecia seguro, tinha um ar de pobre e faminto. Ele pôde ver que ela estava com muito medo e disse: "Eu estou aqui para ajudar, madame. Por que não espera no carro onde está quentinho? A propósito, meu nome é Tiago".

Bem, o problema dela se resumia num pneu furado, o que para uma senhora era ruim o bastante. Tiago, abaixou-se, colocou o macaco e levantou o carro. Logo já estava trocando o pneu. Ele ficou um tanto sujo e ainda feriu uma das mãos. Enquanto Tiago apertava as porcas da roda, ela abriu a janela e começou a conversar com ele. Contou que morava no Morumbi e só estava de passagem por ali e que não sabia como agradecer pela preciosa ajuda.

Ela perguntou quanto lhe devia. Qualquer quantia teria sido muito pouco para ela que já havia imaginado todas as terríveis coisas que poderiam ter acontecido se Tiago não tivesse parado.

Tiago não pensava em dinheiro. Gostava de aj udar quando alguém tinha necessidade e Deus já lhe ajudara bastante. Este era seu modo de viver e nunca lhe ocorreu agir de outro modo.

Assim, ele respondeu: "Se realmente quiser me reembolsar, da próxima vez que encontrar alguém que precise de ajuda, dê para aquela pessoa a ajuda que precisar". E acrescentou: "E pense em mim."

Ele esperou até que ela saísse com o carro e também se foi. Tinha sido um dia frio e cansativo, mas ele se sentia bem, indo pra casa, desaparecendo no crepúsculo.

Alguns quilômetros depois, aquela senhora encontrou um pequeno restaurante. Era um restaurante sujo. A garçonete veio até ela e trouxe-lhe uma toalha limpa para que pudesse esfregar e secar o cabelo molhado e lhe dirigiu um doce sorriso, um sorriso que mesmo com os pés doloridos por um dia inteiro de trabalho, não pode apagar.

A senhora notou que a garçonete, embora estivesse com quase oito meses de gravidez, não deixava a tensão e as dores mudarem sua atitude.

A senhora ficou curiosa em saber como alguém que tinha tão pouco, podia tratar bem a um estranho. Então, lembrou-se de Tiago. Após a refeição, enquanto a garçonete buscava troco para a nota de cem reais, a senhora se retirou. Já havia partido quando a garçonete voltou.

Estranhando, sem saber onde a senhora poderia ter ido, ela notou algo escrito no guardanapo, sob o qual havia mais quatro notas de cem reais.

Havia lágrimas em seus olhos, quando leu o que a senhora escreveu. Dizia: "Você não me deve nada, eu já tenho o bastante. Alguém me ajudou uma vez e, da mesma forma, eu a estou ajudando".

Aquela noite, quando se deitou na cama, ficou pensando no dinheiro e naquilo que a senhora deixou escrito. Como pode aquela senhora saber o quanto ela e o marido precisavam daquele dinheiro? Com o bebê para o próximo mês, como estava difícil! Ela se virou para o preocupado marido que dormia ao lado, deu-lhe um beijo carinhoso e sussurrou: "Tudo ficará bem; eu te amo, Tiago!"

Autoria: 
Extraído do livro Estórias para Contar, de William Netto Candido