Valorizando todos os dias de nossas vidas


Era como um dia qualquer. Acordei, fiz minhas orações, pedi ao plano espiritual que me acompanhasse e segui rumo a mais um dia de trabalho.

Sexta-feira, dia quente, véspera de final de semana, com congestionamento desde as primeiras horas da manhã. Ao meio dia, saía da zona sul para ir à zona norte. O trânsito me sufocava, o calor parecia que ia me derreter. O carro parecia uma sauna.

Os carros buzinavam naquele agito típico das grandes cidades. Transeuntes atravessavam as ruas desatentos, correndo assoberbados com suas responsabilidades. Nesta hora lembrei-me de fazer uma breve prece: "Senhor, ampara-me, auxiliando a realizar o trabalho que Tu queres que eu faça".

Estava indo ao Hospital Central, um hospital presídio que atende somente presos em estado grave.

Naquela sexta-feira tinha prometido a mim mesma atender todos os doentes, pois a presença de um advogado quase sempre é muito benéfica para a tranquilidade do presidiário. Cheguei à Penitenciária do Estado, e lá dentro segui rumo ao hospital. Um silêncio começava a ser ouvido, demonstrando que toda correria tinha ficado lá fora.

Havia flores no jardim muito bem cuidado por funcionários do Hospital e presos em regime semi-aberto. Estes presos são, por merecimento, progredidos do regime fechado ao semi-aberto e prestam serviço no hospital. Saem de trás das muralhas todos os dias, levantando às 5 horas da manhã e vão a seus locais de trabalho, para somente no fim do dia, como qualquer trabalhador comum, voltar para sua casa, que é o presídio onde cumprem pena .Eles exercem as mais variadas funções, sempre com muito zelo e cuidado.

Entrei no hospital. Fui até a minha mesa e ordenei a montanha de papéis necessários para falar com os doentes. Eram muitos e com certeza teria muito trabalho.

Após cautelosa arrumação, estava pronta para o atendimento e comecei a visita, quarto por quarto. Cada quarto, é uma mistura de quarto de hospital com cela. Todos têm portas com trancas a serem fechadas pelo lado de fora por um agente penitenciário, que as fecha à noite e só irá abri-las de manhã, a não ser que haja remédios a serem dados, ou que algum paciente passe mal. Neste caso a porta será aberta para que um enfermeiro ou, se for o caso, um médico, atenda o sentenciado.

Na verdade somam-se as tristezas de um hospital, onde a dor e a desesperança de doenças muito graves acometem seus desafortunados internos com a tristeza de um presídio, onde a liberdade só está na palavra e nos corações de cada um.

E assim visitei vários doentes e, quando estava entrando numa das últimas celas do pavilhão feminino, uma presa que não podia se levantar, tal seu estado de fraqueza, pediu-me desculpas por não ter falado comigo em dia anterior de visita aos sentenciados.

Disse que não aguentava de dor, e só por isso não quis falar comigo. Mas insistia em suas desculpas. Respondi que não tinha com que se preocupar, que faz parte do meu trabalho e que entendo que, muitas vezes, o estado é tão doloroso que não dá vontade de falar. Mas, consolando-a, ou tentando consolá-la, comecei a dizer-lhe que parecia em melhor estado do que o anterior.

Neste ponto da conversa, com lágrimas nos olhos, pedia um simples shampoo e um sabonete, por sentir-se menos mulher, menos feminina, por não ter um único perfume em seu corpo, pois os produtos do hospital não têm perfume, são à base de soda. Com lágrimas rolando em suas faces dizia só querer, se sentir por um momento, ainda que na cama, um pouco menina, um pouco mulher.

Sua doença é incurável, ela sabe disso. E também sabe que talvez a liberdade não chegue a tempo de poder rever o mundo, antes de sua final partida. Presa numa cama, sem televisão, sem visita, sozinha, sem eira e nem beira, caminha em direção à morte, pedindo para se sentir um pouquinho mulher.

Já não sabia o que dizer. Meus pés pareciam ter solidificado no chão. Eu tinha de ir embora, mas não conseguia me mexer. Parecia que todas as frases tinham fugido da minha mente, me deixando também abandonada, sem o que dizer para aquela menina de cabelos loiros, olhos cor de mel, magrinha, franzina, perdida debaixo do cobertor.

Finalmente, vi uma rosa, cor de rosa, numa caneca em seu quarto, destoando da frieza de um presídio e da tristeza de um hospital. Perguntei: "Quem lhe deu esta flor?"

"Não é hoje?" Respondeu-me com outra pergunta, como se tivesse feito uma enorme confusão de dia.

Pensei, pensei. Não entendi nada. O que uma rosa teria a ver com qualquer dia em especial? Continuei pensando, quando, em socorro, ela me auxiliou: "Não é hoje o início da primavera? Não é hoje o dia 22 de setembro?"

Não pude acreditar no que ela me perguntava; só consegui responder com um "ham-ham". Ela, fingindo não entender o meu aturdimento, explicou pacientemente: "Hoje, ao acordar, quando entrou aqui um menino do semi-aberto, disse a ele que gostaria muito de receber uma flor, para homenagear a primavera. Pedi que não a roubasse e ele voltou com ela, dizendo que tinha pedido ao jardineiro licença para trazer-me esta flor.

Nesta hora, quem quase chorava era eu, por não ter lembrado da primavera, por ter esquecido de agradecer aquelas belas paisagens que pude ver e que em alguns minutos poderia rever, mas que ela só podia contemplar no seu quarto-cela, olhando para aquela única flor.

Não me lembro se consegui dizer mais alguma coisa. Tinha diante de mim uma mestra, que talvez ninguém nunca mais pudesse ver pois, no dia seguinte, talvez estivesse desencarnada. Uma mestra anônima, escondida num lugar perdido. Uma mestra que me deu uma enorme lição, mostrando que aquele não era como um dia qualquer, era dia de agradecer pela benesse da vida e pelas belezas criadas pelo Pai.

Finalmente, quando consegui sair do quarto, pude ouvi-la dizendo: "Dr.a, esta rosa parece com a senhora!". Não disse mais nada, não era eu que ela via, pois só quem tem beleza no coração pode ver a sua própria imagem refletida em outros corações!!!

Obrigada, Mestre! Agradeço a bendita lição que recebi. Fazei com que de hoje em diante eu possa ver em cada ser a Tua beleza refletida, pois foi isto que viu a meio presa, meio doente, meio menina, meio mulher.

Autoria: 
Diana Ostam Romanini