Desencontros


O mundo, pouco a pouco, vai nos consumindo.

A matéria, sutilmente, vai nos enredando, nos seduzindo, colocando os sonhos e as ilusões no ápice dos nossos objetivos.

Os prazeres, as comodidades que vamos desfrutando, gradativamente, transformam as nossas vidas, velando as verdades, mantendo-as distantes das nossas mentes e dos nossos corações.

Inconscientemente nos encontramos alicerçados em futilidades, tangidos por efêmeras alegrias que, como por encanto, desaparecem no nosso horizonte tão rapidamente como surgiram, deixando em nós seu rastro de tristezas e decepções, heranças sombrias da falta de essência em nossas vidas.

Impelidos pelas nossas incompreensões, julgamo-nos mártires, decepcionados com o mundo ao nosso redor, não vislumbrando as belezas que tantos outros estão tendo a ventura de usufruir e compartilhar.

Nossos dias já não têm mais alegria, a natureza pujante que enfeita a vida, nada mais representa para nós, não mais conseguimos visualizar o seu resplendor porque aprisionados pelo pessimismo contumaz, nos tornamos insensíveis às maravilhas que o Pai da Vida amorosamente nos oferta.

As pessoas com as quais comungamos esta jornada terrena, paulatinamente, vão perdendo nosso respeito e consideração porque passamos a enxergar em cada uma delas as mesmas desvirtudes que muitos outros já nos demonstraram e, desafortunadamente, não conseguimos mais nos aperceber do perfume que os seus corações exalam e que carinhosamente tentam de todas as formas nos fazer sentir.

O lar que nos acolhe, o alimento que nos serve, as roupas que nos revestem, a cama que nos convida ao descanso e refazimento, o cobertor que nos aquece, passamos a ignorar.

Acostumamo-nos a todas estas facilidades e, sem valorizarmos estes tesouros conquistados, não conseguimos nos aperceber do que seria de nós se não os tivéssemos.

Não percebemos que...

a companhia daqueles que nos amam, muitas vezes, se torna enfadonha trazendo-nos inquietação e desprazer;

o olhar amoroso daqueles que nos consideram parece que já não possui o mesmo encanto e mansidão;

as palavras sinceras que nos dirigem passam a não ter a harmonia sonora que outrora acalentava nossa alma;

os braços carinhosos que envolvem o nosso corpo já não conseguem transmitir-nos o calor que nos apaziguava e passam a não ter nenhum significado para nós;

os ouvidos silenciosos que escutam nossas mazelas parecem desprovidos da paciência de outros tempos.

Sim, pouco a pouco, vamos nos tornando impermeáveis aos tesouros que o Pai dadivosamente coloca ao nosso dispor em forma de pais, irmãos, parentes, amigos e a acidez que contamina todo o nosso ser é evidenciada pelo nosso olhar irritado, pela nossa palavra áspera, pelos nossos gestos impacientes e agressivos.

Do nosso interior, ao invés de exalarmos o bálsamo etéreo da mansuetude e do amor, como não o possuímos, materializamo-lo em forma de queixumes, contribuindo para poluir o ambiente em que militamos e as pessoas que conosco convivem, tornando nossa presença acúlea, desestimulante, não oferecendo àqueles que amorosamente estão ao nosso redor, alegria e prazer.

Enceguecidos, permanecemos horas, dias, semanas, meses e até anos alimentando-nos destes miasmas atrozes que enegrecem nossa mente, enregelam nosso coração, paralisam nossos braços, mumificando as nossas mãos, fazendo-nos, lenta e progressivamente, desacreditar da vida com que tão generosamente o Pai nos presenteou.

Até quando seremos algozes de nós mesmos?

Até quando a tristeza irá nortear nossos passos?

Até quando levaremos aos corações daqueles que nos amam o desalento da nossa companhia?

Até quando estaremos envolvidos pelo amargor dos nossos desenganos, chafurdando-nos nas águas lamacentas do pessimismo, das incompreensões e das desconfianças?

Até quando pretendemos tornar realidade as quimeras pretensiosas do nosso querer?

Até quando iremos exigir atenção, respeito e amor se ainda não conseguimos entender aqueles que conosco compartilham o mesmo teto que nos abriga?

A vida palpitante está diante de nós convidando-nos, generosamente, a dela usufruirmos momentos de aprendizado, beleza e encantamento.

Abramos as cortinas do nosso coração e participemos deste palco maravilhoso, como personagens vibrantes, fazendo de cada reencarnação um ato de agradecimento Àquele que nos deu a vida.

Meditemos, conheçamo-nos um pouco mais, mergulhemos no âmago das nossas almas, envolvidos pelo escafandro da determinação, buscando as virtudes que conquistamos, procurando extirpar as desvirtudes que ainda estão encrustadas em nosso espírito, tolhendo os eflúvios amorosos latentes em nossos corações.

Desfaçamo-nos do egoísmo que nos enlaça, diluindo-o nas águas cristalinas e luminescentes da compreensão, do perdão e do amor.

Façamos emergir a luz do Cristo Jesus que cintila incessantemente em cada um de nós, para que, iluminando os espíritos daqueles que trilham conosco os mesmos caminhos, possam sentir a sua doçura e a sua paz.

Valorizemos a todos quantos a nós dedicam suas vidas, depositando em seus olhares a nossa gratidão, em seus ouvidos a nossa palavra carinhosa, em seu corpo nosso amplexo afetuoso e, no imo das suas almas, o reconhecimento sincero do nosso coração.

Transformemo-nos.

O momento é chegado.

Burilemos nossas almas na busca incessante do equilíbrio e da paz irradiando para todos os quadrantes o amor envolvente que palpita dentro de nós, esculpindo com o cinzel do amor esta jóia de sabedoria que o Divino Emissário do Amor plácida e fraternalmente nos legou:

"Façamos aos outros tudo aquilo que gostaríamos que a nós fosse feito."